sábado, 22 de julho de 2017

Em tempos de crise

Tenho transtorno de ansiedade e tive uma crise recentemente. Não posso dizer que foi uma crise sem precedentes porque  perdi a conta das vezes que, láááá no passado, eu vivia subjugada pela ansiedade. Talvez a palavra "subjugada" pareça meio exagerada, mas não consigo pensar numa outra que possa descrever como eu me sentia no auge do Transtorno de Ansiedade Generalizada. Antes de descobrir que meu sofrimento tinha um CID e um tratamento, a  ansiedade m dominava, tudo que eu era começava e  terminava naquele sentimento constante de que algo terrível vai acontecer.  A Ansiedade Generalizada consiste justamente numa preocupação excessiva e permanente com TUDO, tudo mesmo. Sair de casa era um sofrimento, estudar era um sofrimento ( quase não terminei a faculdade), deixar um copo cair no chão era sofrimento. Chegou  a um ponto em que eu não queria mais viver.  Fui procurar tratamento porque eu não aguentava mais de verdade, tinha chegado ao meu limite. Eu tinha 21 anos e vivia num inferno. Procurei o departamento de psicologia aplicada da UFRJ, universidade onde estudei, e fui atendida por uma estudante de psicologia orientada por um professor de Terapia Cognitivo-Comportamental. Passei quase 2 anos em tratamento e aprendi a lidar coma  ansiedade. A terapia cognitivo-comportamental e aquela estagiária fofinha e animada que me atendia foram  umas das melhores coisas que aconteceram na minha vida, sem exagero, sem pieguices.

Mas, Juliana, você começou esse post dizendo que teve uma crise recente. O tratamento não adiantou? Eu não deixei de ser ansiosa. Em momentos difíceis, a insônia volta sem freio e sem limites. No período em que minha vó morreu e depois da morte dela, eu cheguei a passar 3 dias seguidos sem dormir. Vivi situações complicadas depois do tratamento, mas nada próximo do desespero de antes.  A crise recente vinha se anunciando faz tempo. Eu sei quando estou ansiosa além do que é saudável, eu falei na análise, eu falei pra amigos. Um monte de pequenas e grandes coisas vêm acontecendo na minha vida. Fui assaltada, presenciei um assalto violento que me apavorou mais que o assalto que sofri, jogaram uma pedra no ônibus - em  movimento- em que eu estava, voltei a morar sozinha; a lista é mais extensa.  Diante de tudo isso, a ansiedade foi maior que eu e eu perdi o chão. A diferença é que agora eu sei que a falta de ar vai passar, que a minha cabeça vai voltar a funcionar direitinho, que eu não vou morrer. Não sei se funciona  do mesmo jeito pra todo mundo que tem TAG, mas pra  mim o pior sempre foi  o modo como a ansiedade me tira a capacidade de pensar. Eu esqueço como é agir do meu jeito, como é tomar as  minhas decisões, eu esqueço de mim. E isso é apavorante: o sentimento de vazio e descontrole, de ser dominada.

Eu quis escrever sobre essa crise aqui, depois de tanto tempo sem escrever no blog , porque a ansiedade é um tabu pra mim. Por mais que eu fale desse assunto pras pessoas e comente sobre terapia, análise, tratamentos, uma parte de mim sente vergonha e medo. Acho que o medo nunca vai passar e talvez seja importante que nunca passe pra que eu não me iluda nem seja arrogante no que diz respeito ao Transtorno de Ansiedade Generalizada.  Mas a vergonha é desnecessária, não me ajuda em nada. Nessa última crise,  eu deixei a vergonha de lado e pedi ajuda - um feito inédito.Meus amigos sabem de toda essa história, mas nunca ninguém me viu em crise. Nunca conversei com eles sobre como lidar com essa situação, mas ainda assim pedi ajuda porque, embora eu soubesse que tudo aquilo ia passar, eu não precisava estar sozinha.  Eu sou daquelas pessoas que acham que se bastam, que têm certeza que  podem dar conta de tudo. E eu posso mesmo fazer uma porção de coisas, sou adulta e independente e nada disso vai mudar porque pessoas que se importam me viram num momento de extrema fragilidade.A vergonha só faz com que a gente se isole e, nossa, como é importante ter gente por perto com quem contar, não só pra não se afundar em sofrimento, mas também porque os amigos têm muito a dizer sobre nós. 

Nessa crise, dois amigos vieram aqui em casa. Eles  vieram e trouxeram consigo  normalidade e comida. Eu tinha passado um dia inteiro sem comer nem beber e nem tinha me dado conta. Eles arrumaram um pouco a minha casa, que tava um caos porque há dias eu não vinha sabendo lidar com a responsabilidade de cuidar dela sozinha. A gente conversou, eles me ouviram e eu fiquei sabendo que a situação que tinha servido de gatilho pro meu mal- estar já havia acontecido com eles várias vezes. Às vezes, a gente esquece que  merdas acontecem com todo nesse mundo maluco. Depois que fiquei mais ok, contei pra outras amigas o que tinha acontecido, saí de casa mesmo não querendo muito e dei crédito à boa vontade das pessoas. A gente sabe direitinho quem pode ajudar , né? Então pedi ao meu tio pra dar uma olhada no pressurizador do chuveiro que tava quebrado, pedi à ex-roommate pra deixar o banheiro limpo do jeito que só ela consegue, falei pra colega do trabalho que não tava conseguindo organizar a turma pro projeto. É um exercício pra mim delegar, pedir, soltar o controle. É difícil, né, mas tem que fazer. 

Não sei se esse post está com tom de autoajuda. Se estiver, é porque é uma autoajuda de mim pra mim mesma. Risos. Eu tô escrevendo pra não esquecer.

p.s.: que saudade que eu tava do Fina Flor.

3 comentários:

Cheshire cat disse...

Os últimos tempos me ensinaram que pedir ajuda é importante sim e que escrever ou falar sobre o que nos aflige é um jeito muito bom de lidar com isso. Um abraço enorme.

livroseoutrasfelicidades disse...

Também estava com saudades de vc escrever aqui.
Se você tem a quem pedir ajuda, peça. Não te faz menos capaz. Te faz mais capaz, já que você vai receber ajuda e conseguir fazer ainda mais coisas, ou mais bem feito, ou de forma mais leve ;-)
Acabei de ler "Americanah". Nem sei como agradecer um livro tão lindo e relevante. Obrigado.

aliceecila disse...

tb estou mto ansiosa e me sinto pior pq não tenho pra quem pedir ajuda?!

:p

(minha mãe chega em 10 dias, acho que vai ficar tudo melhor)