sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Aparentemente, moro no bairro mais legal do Rio. Toda, ênfase no "toda", pessoa pra quem eu conto onde tô morando sorri simpaticamente e diz: " Ah, que legal. Gosto tanto de lá! ". Existem as pessoas que nunca estiveram aqui mas que, ainda assim, têm certeza de que este bairrozinho é um lugar que elas certamente gostam de antemão.

Eu mesma nunca tinha colocado os pés nas ruas daqui antes, e a primeira impressão não foi das melhores. Quando vim conhecer o apartamento, peguei um taxista que se guiava pelo GPS e acabei fazendo um caminho tão bizarro que nem sei reconstituir. Era um fim de tarde bem cinza e não me lembro de ter visto o monte de carros e ônibus que passam ali na esquina. A árvore grandona que faz sombra no meu rosto enquanto escrevo me pareceu melancólica e meio assustadora.

Agora, faz quase um mês que recebo correspondências ( contas, obviamente) neste endereço. Um colega do trabalho me disse que este é o melhor bairro pra quem gosta de beber. Eu ri. Eu não bebo. Ele disse que, morando aqui, eu iria começar a beber. Já imaginei os donos dos bares forçando cerveja ( odeiooo, eca, é amarga) por minha goela abaixo. Ou então uma rede de abastecimento caseiro de bebida alcoólica: todas casas providas de encanamentos de água, esgoto, gás e cachaça.  Até agora, não descobri a torneira de cachaça da minha casa. As duas melhores descoberta até agora foram um sanduíche  divino de linguiça e a comidinha boa do bar da esquina ( boa, gente, muito boa! E barata!).  Ter comida apetitosa por perto deveria ser critério na hora de escolher onde morar. No meu antigo bairro, não havia nenhuma comida que realmente trouxesse felicidade. Passei muitos finais de semana, desejando que a minha pizzaria favorita em Nova Iguaçu tivesse um serviço de delivery beeeeem abrangente. Não tinha. Era sofrido.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Casa, gata, promessa e teto

Emma dorme na beirada da cama. Está estranha a minha gata. Perdeu o útero, a casa, os filhotes, tudo de uma vez. Passou dias miando doído, grudada na porta que ela já sacou que leva pra a rua. Eu também estranhei a casa, mas, ao contrário da Emma, estou aqui por vontade própria. Passei dois meses entrando e saindo de  outras casas menos legais até saber que viria pra essa. Na verdade, esse. É um apartamento. Há pessoas respirando, dormindo, fazendo sexo, cortando as unhas dos pés sobre a minha cabeça.Já não moro na casa silenciosa e fresquinha. Moro nesse apartamento luminoso, fincado numa esquina barulhenta. Passei noites sentindo o frear dos ônibus reverberando na sola dos meus pés. Que agonia. Por duas madrugadas, enfiei espuminhas protetoras nas orelhas pra forjar silêncio. 

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Aqui perto, bem perto, tem uma livraria. Nunca morei tão perto de uma livraria. Fui lá hoje em busca de um livro que me apetecesse. Nenhum me apeteceu. Acho que não sou mais uma pessoa de livros. Para não dizer que não li nada, abri um livro sobre gatos e acabei por descobrir que Emma pode ser surda. Vocês sabiam que gatos completamente brancos com olhos azuis têm mais chances de terem problemas auditivos? Emma é absurdamente branca, tem olhos azulzíssimos e é a gata mais silenciosa que já vi. Me disseram que a castração deixa o gato mais manso: tive medo de que Emma virasse de vez enfeite de estante. Li num blog que um bom teste de audição para gatos é ligar o aspirador de pó e observar a reação do bicho. Não me lembro como Emma se comporta na presença do aspirador e tô com preguiça de ligá-lo. Ainda não decorei onde ficam as raras tomadas dessa casa.

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Fiz promessas de ano novo. Escrevi num guardanapo como a JoutJout e guardei bem guardadinho para que as promessas não se perdessem na mudança. Não tenho ideia de onde enfiei. Ter uma boa memória não é uma promessa que eu possa fazer. Mas, tudo bem, não preciso do guardanapo pra lembrar. Minhas promessas são desejos, e o desejo tá sempre aqui.

Uma das promessas vai ficar registrada: quero ser uma pessoa interessante. 

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O teto do meu quarto é o universo: tem lua, estrelas, Saturno. Há dois quartos nessa casa.  No da Silvana, tem um armário imenso. No meu, tem decalques que brilham no escuro.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O último

2015 foi um ano cansativo. Nunca me senti tão cansada. Eu fui vivendo e pensando: ai, que saco! Não tenho energia nem pra mover o dedão do pé. Vivi 2015 no automático, administrando a vida prática ( para a qual não tenho o menor talento) e encarando as maluquices da minha cabeça. Porque esse foi o ano em que todos os meus fantasmas decidiram se reunir numa convenção pra  me assombrar. Não tive trégua, mas acho que fui uma boa soldado. Encarei as maluquices da melhor maneira que pude. E sobrevivi.

Mas eu não quero falar de chatices. Esse blog sempre funcionou como meu HD externo, então quero voltar nesse post daqui a um tempo pra me lembrar do tanto que sou grata pelo que  vivi em 2015. Esse ano estranho e meio torto me obrigou a aprender que amar é mais que deixar ir, é deixar ser. Alguns dos meus laços mais importantes sofreram abalos dolorosos, mas outros se tornaram ainda mais seguros. Um desses laços me confirmou o que sempre tive dificuldades de entender: sozinho, tudo é mais difícil. E eu estou longe de estar sozinha. Tenho uma família cheia dos defeitos, mas que não abandona os seus. Tenho uma mãe que sempre esteve por perto e que não cansa de me surpreender positivamente. Tenho amigos que se dispõem a enfrentar perigos pra me ajudar, que passam uma tarde longa numa sala de espera pra me apoiar, que têm paciência com meus defeitos, que  me confiam  seus segredos, que me dão uma afilhada. Tenho  um trabalho que adoro, num lugar que adoro, onde recebo abraços todos os dias. 2015 foi o ano mais leve e prazeroso que tive em toda minha carreira em escolas.

2015 me deu Sophie, me deu Salvador, me deu o exercício da paciência e da compreensão, me deu  essa coisa boa que é estar viva apesar de.

Vou começar 2016 cheia de uma esperança que não cabe em mim. Apesar dos pesares, tenho fé no poder do afeto dos  que nos amam e na nossa própria vontade de ser mais feliz.  É o que eu quero pra 2016: ser mais feliz, na medida do que for possível. Quero aceitar a tristeza e encarar os dias em que ela vem pesada com algum equilíbrio. Quero ter coragem e paciência. Quero me lembrar que sei me virar muito bem. Quero não estar sozinha. Quero estar mais de peito aberto. Quero saber ser grata. Quero a beleza, a bondade e abraços. Quero  gentileza e maciez. Quero.

Sei que não estive muito por aqui esse ano,mas as pessoas que leem esse blog são muito importantes pra mim. Sempre foram. E eu quero meus desejos de felicidade cheguem até você, pessoa querida que leu esse post,  e que você possa recebê-los como um abraço bem apertado.

Feliz 2016, minha gente!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Continue a nadar

" É preciso tentar não sucumbir ao peso das nossas angústias, Harry, e continuar a lutar."

Dumbledore, aquele homem maravilhoso, sempre dizendo a coisa certa, né? Tá certo que a gente não tem que derrotar um cara que partiu a alma em sete pedaços e tal, mas acho que é um conselho que não deve ser desperdiçado.

Essa fala é de [ muitos coraçõezinhos pra esse livro] O Enigma do Príncipe.  

domingo, 1 de novembro de 2015

Sentir falta de escrever aqui é uma constante. Houve uma época em que tudo era motivo de post. Nos últimos tempos, penso umas  cinco vezes antes de abrir o aplicativo do blogger. Sim, aplicativo,  quase não tenho usado o notebook. Meu celular novinho com tela maior que a daquele celular da maçãzinha muquirana ganhou a batalha entre os gadgets. Dia desses, eu tive que dar uma reviradinha na casa atrás do notebook. O pobre estava embaixo da cama, empoeirado e obsoleto. Eu começo a escrever e de repente tudo parece chato, bobo, cansativo. Agorinha mesmo, neste exato momento, esses sentimentos tão surgindo aqui na minha cabeca, mas eu vou resistir, serei mais forte. A batalha é dura, viu. Vou respirar um pouco e continuar a guerra no próximo parágrafo.

Travei. Tenho uma ideia do que quero escrever, mas falta aquela palavra boa que impulsiona o parágrafo. Hum. Não queria usar "eu". Minha professora da quinta série me ensinou que iniciar parágrafos  com pronomes pessoais é um recurso pobre e nunca consegui desapegar desse conselho. Só que eu já não estou no início do parágrafo, então vai o " eu" mesmo. Eu... e agora não lembro o queria dizer. Ah, sim. Eu desisto de escrever aqui  porque só sinto vontade de falar de cansaço, que está muito longe de ser um assunto inédito no blog. Eu vivo falando de cansaço, eu vivo cansada. Mas agora é um cansaço com o qual não tô sabendo lidar. Vou contar uma história no parágrafo seguinte pra ilustrar, historinhas sempre explicam melhor.

Dia desses, dois ex-alunos meus brigaram na escola. Uma aluna veio me contar detalhes do evento que agitou o recreio. Para identificar um dos envolvidos, ela usou a expressão: " um viadinho do sétimo ano". Eu não estava preparada pra ouvir isso. Nunca vou estar. Eu conheço o menino a quem a garota se referiu. Ele tem 13 anos, é filho único de uma mãe que trabalha 12 horas por dia, é aluno de uma prestigiosa academia  de dança, é um moleque inteligente e bacana, mas nada disso é importante na hora de identificá-lo. Sei que a briga tem a ver justamente com esse rótulo que todo mundo acha que tem direito de atribuir a ele. Eu queria poder dizer a ele que as coisas vão melhorar quando ele for adulto, mas não  posso dizer mentiras pra adolescentes. Você cresce e nada melhora. Eu tô assustada de verdade com esses tempos em que a gente tá vivendo. Tantos retrocessos, tanta crueldade, tanto ódio, tanto moralismo. Vcs não estão  apavorados?

E fora essas dores normais de ser gente. Porque ninguém avisa que  a vida nunca para de doer, que vc tem é que se virar pra se manter sã enquanto vai lidando com uma magoazinha aqui, um trauminha ali. E haverá dias em que você não vai dar muito conta. Eu estou nesses dias em que não estou dando conta. Estou operando no nível básico de energia. Só tenho fôlego pro mínimo: respirar e trabalhar. Esse é o nível de cansaço. Opa! Mais uma vez a vontade de largar o post bem aqui neste ponto em que claramente falta uma conclusão. Assim como existem as musas, devem existir os gênios maus que conspiraram pra que a gente desista dos posts. Mas eu vou demonstrar bravura, vou terminar no  próximo parágrafo.

Terminei.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Eu sou péssima com relacionamentos, muito péssima. Tem gente que acha que essa é uma afirmação dramática porque sou simpática e sorridente. Existe um pressuposto de que as pessoas extrovertidas e sorridentes são competentes nos relacionamentos. Baseada na minha larga experiência de 31 anos de vida, eu diria que taí um pressuposto furadíssimo. Meus alunos certamente me acham legal, tenho amizades verdadeiras e duradouras, meus colegas de trabalho diriam assim:" ah, Juliana, aquela de português? Ela é meio condescendente com os alunos e tem umas ideias de esquerda, mas é gente boa!" A merda toda está na intimidade, tá naquele limitezinho que eu nem sei bem qual é, mas que tá ali fazendo de mim um desastre no trato com quem chega perto, bem perto.

Eu passei por 4 analistas, e para todas  elas eu disse a mesma coisa: não sei fazer isso, não! Não quero saber de compartilhar, de deixar que saibam. Sou péssima. Prefiro ficar quieta aqui no meu canto. Olha como meu canto é ótimo, limpinho, quietinho e meu, só meu. Ninguém precisa vir aqui. Pode deixar que eu vou lá no canto dos outros pra manter contato. Sou boa em manter contato.Vou só acenar, ouvir e sorrir. Funciona que é uma beleza. Aí todas as 4 analistas repetiam a mesma fala, parece até que combinaram:  Você não acha que é importante poder contar com as pessoas? Uma pergunta como essa quebra qualquer argumento, né?

Sim, é importante; fundamental até. A pessoa não precisa nem salvar sua vida ou seu dia. Basta estar em algum lugar respirando - respirando e com o whatsapp à mão já tá ótimo. Às vezes, é necessário a  gente sentir essa respiração mais de perto, aí a pessoa vem aqui e respira junto. Mas na maior parte do tempo saber que a pessoa existe tá de bom tamanho. 

Relacionamentos dão um trabalho danado, são um saco. Que cansativo que são! Mas, né, tá sozinha nessa vida é cansa bem mais.

(   esse post não tá como eu queria, mas tá na hora de desemperrar o teclado e os dedos.)