terça-feira, 24 de maio de 2016

Ninguém com os pés na água

Fiz algo inédito: pisei na areia usando tênis.

Fiz algo inédito e não planejado: disse que tinha medo do  que estava por vir.

Olhei pro mar sem chorar.  Um mar cinza, um céu cinza e eu sentindo uma paz meio maluca. Fiquei de pé no meio da areia, olhando as ondas e desejando alguma coisa entre ser como elas e ser parte delas. 

Tudo tão cinza, eu com um cachecol vermelho. 



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Sobre blogs e o blog dos blogs

Eu  já me peguei contando uma história que li num blog como se fosse de um amigo próximo.

Já escrevi posts mentais incríveis no metrô, aí sentei na frente do notebook e não saiu uma linha.

Já achei que "ninguém lê essa bagaça, vou deletar", e aí alguém escreveu um comentário tão legal e o Fina Flor escapou com vida.

Já chorei de soluçar lendo coisas tão bonitas que alguém escreveu em blog.

Quando minha vó morreu, houve noites em que não dormi, então eu pegava o celular e lia os posts da Rita sobre a morte da mãe dela. Eu me sentia tão menos sozinha.

Já tive paixonite séria por um moço que  tem blog. A palavra seduz, né?

Já tive vergonha de deixar comentário em blog porque achava a pessoa muito fodona  e ficava tímida. Aliás, encontrar pessoas cujos blogs leio me deixa intimidada.

Quando tentei me lembrar a idade da Emma, corri aqui no blog porque sabia que tinha escrito um post sobre a chegada dela.

No momento, um dos meus livros favoritos ( e que não é fácil de achar) está na casa de uma moça cujo blog eu leio.

Já passei por blogueira na rua e na hora achei que era alguém da tv. 

Poucas pessoas da minha vidinha off line sabem da existência do Fina Flor - e eu gosto assim!

Tentei explicar pra minha mãe de onde conheço o Felipe e a Rute, mas ela não entendeu.

Em geral, as pessoas que leem este blog me acham fofinha. Ninguém que não conhece o Fina Flor. me acha fofinha.  Blogs também podem ser propaganda enganosa.

Nunca me recuperei do fim do Google reader.

Nem todos os blogs que leio estão linkados aqui porque  seria um blogroll  muito gigante.

Então, todo esse papo sobre blogs é  só um pretexto pra falar daquilo que pode ser considerado um blogroll enorme:  um blog que reúne e exibe as atualizações de vários blogs. A Central do Textão surgiu da vontade de juntar  blogs  num canto só, pra que a gente não se perca uns dos outros outros nesse mar efêmero de redes sociais.   A  ideia da Central veio da cabecinha da Tina, a garota mais popular da blogosfera, a amiga de geral. Ela teve o trabalho de chamar os conhecidos, de organizar uma vaquinha pra que a Juliana fizesse esse blog dos blogs tão lindinho.

Vão lá  conhecer a Central do Textão e  um monte de gente que acha que escrever em blog é muito, muito legal.














sábado, 14 de maio de 2016

Mesmo calada a boca, resta o peito

"Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado" *

Comecei várias vezes esse post. Escrevi uns parágrafos e apaguei. Postei um vídeo e apaguei. Há tanta coisa que eu queria dizer, mas não consigo levar ao fim um texto elaborado. As palavras ainda não superaram a angústia. Deixei então que o Chico dissesse por mim - ele, de quem nem gosto tanto; essa música, na qual nunca prestei muita atenção e que andei cantarolando tanto essa semana.

Tenho me sentido tão confusa, com medo de ser ingênua, me sentido tão ignorante por saber tão pouco de política, de história, de economia, de direito e direitos. Sou uma mulher adulta, uma nascida em 1984, mas por esses dias tenho me sentido como uma criança vulnerável. As pessoas falam em luta, em não aceitar calados, mas acho primeiro que terei que me desacostumar com o que sempre pareceu tão sólido. 

Mas já tenho planos pra quando quando conseguir organizar a cabeça: serei uma pessoa de argumentos. Tenho vivido baseada nos valores que me minha mãe me ensinou e no aprendizado que a experiência enfia goela abaixo. Não dá mais pra acreditar na ilusão de que só isso basta. Vou me apropriar dos rótulos, porque esses primeiros dias já nos mostraram que não serão tempos de sutilezas.


P.S.: Ah, eu moro no  Rio de Janeiro, e isso significa estar duplamente ferrada. 

* acho que Chico Buarque e a sua Cálice não precisam de apresentação, né? Na verdade, eu cantarolo a versão que os alunos de São Paulo fizeram






sábado, 30 de abril de 2016

Se minha próxima refeição fosse a minha última refeição, eu pediria azeitona, salame, palmito, brócolis, farofa e azeite.

Se houvesse uma penúltima refeição, eu pediria pão francês bem quentinho com manteiga.

Se houvesse uma antepenúltima, eu pediria suco de laranja bem gelado.


Se, em vez de últimas refeições, eu pudesse pedir uma refeição impossível, seria a dobradinha com batata feita pela minha vó. Só de pensar, sinto o cheirinho - e é tudo o que posso ter. A minha mãe faz uma dobradinha bem boa, mas a da minha vó era inigualável.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Uma sugestão

Se você não estiver muito feliz hoje, veja esse clipe. Aposto  que ao menos um sorrisinho magro vai aparecer na sua cara, nem que seja um bem magrinho.




Funcionou?

Toda vez que vejo esse clipe, eu fico girando pela sala, fingindo que também estou sob uma chuva de papel picado.

A musica é Ho Hey (que nome ótimo!) e a banda é The Lumineers. A letra é tão lindinha.







quinta-feira, 24 de março de 2016

Falta um pedaço

Os alunos são uns interessados na nossa vida. Querem saber se a professora tem marido, tem filhos, onde mora, por que não compra um carro. Eu particularmente sou um caso que deixa as crianças um pouco confusas. Sou uma mulher de "não tenho". 
Não tenho marido.
Não tenho filhos.
Não tenho carro.
Não tenho irmãos.

Mas o "não tenho" que mais causou comoção foi descoberto nessa semana. Um grupinho estava comentando o capítulo de uma novelinha infantil do SBT. A discussão rolava acaloradíssima, e alguém achou por bem pedir a minha opinião. Primeiro, eu disse que não conhecia a novela. Como assim, professora? Como assim? Todo mundo no universo e em todas as dimensões conhece essa novela.  Diante de tanto espanto, resolvi explicar o motivo da minha ignorância:

- É que eu não tenho televisão.

Silêncio. Todos  na sala olharam pra mim. Todos os olhos se arregalaram. Todas as bocas se abriram. Uma chuva de perguntas desabou sobre mim:

- Por que você não tem? Quebrou? Está no conserto? 
- Não, gente! É que eu me mudei, saí da casa da minha mãe e nunca comprei. 

Talvez se eu tivesse falado em grego, eles teriam entendido melhor. 

-Como assim? Como Assim?
- Gente, não tenho, ué. Não me faz  falta. Não gosto muito de novela, não vejo o jornal. Se eu quiser ver alguma coisa, posso achar na internet.

Minhas palavras entraram por um ouvido e saíram por outro. Continuaram todos chocados, e a televisão que não tenho virou tema do dia. Ainda tentei argumentar, explicar, mas decidi me calar depois de ouvir a sentença, proferida por uma criatura que ainda não chegou à segunda década da vida:

- Professora, você precisa de uma televisão. sua vida está incompleta.

P.S.: Eu não tenho netflix. Cancelei porque pagava e não usava.




quinta-feira, 10 de março de 2016

Acontece muito de eu estar subindo as escadas do colégio depois do recreio e alguém vir reclamar que o fulano tá implicando/puxando o cabelo/ tirando meleca do nariz e passando na blusa da colega. Daí que ontem eu tava lá subindo as escadas ( que são muitas) e equilibrando minhas tralhas  (que são muitas também), quando uma menina do sexto ano me puxou pelo braço e disse:

-Tia, o fulaninho ficou o recreio inteiro incomodando a gente. 

A menina não estava só, umas três outras meninas estavam lá com ela. As três sacudiram a cabeça, ratificando a fala da outra.

- Ah, é? O que ele tá fazendo? Vou conversar com ele.

- Ele tá  chamando  a gente de criança porque a gente trouxe boneca pra brincar no recreio.

Por um segundo, achei que tinha entendido errado. Elas têm 11 anos. Todo mundo diz que as meninas dessa idade não brincam de boneca.

- Vou conversar com ele. Pode deixar.

A menina continuou ainda inflamada:

- É, professora ( ainda estamos na fase de alternância entre tia e professora), briga com ele. Manda ele deixar a gente me paz. Porque a gente brinca de boneca, mas a gente não é criança.

É, não são, não!